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A Busca da Felicidade: Uma Meta Possível de Ser Alcançada?



Autora: Camila Carneiro de Faria

 

Resumo: O presente artigo procura discutir se a felicidade, que sempre foi buscada, é uma meta possível de ser alcançada. Para isso, pretende-se articular o tema com expressivos autores do Humanismo e Existencialismo, Carl Rogers e Viktor Frankl, respectivamente. A metodologia utilizada foi primeiramente a escolha de um tema de nosso interesse e sua articulação com autores do existencialismo ou do humanismo. Podendo então comprovar que não se deve buscar a felicidade, pois ela é uma conseqüência de como as pessoas levam a vida.

 

Palavras – chave: Carl Rogers; felicidade; Viktor Frankl.

 

A busca da felicidade é o combustível que move a humanidade, sendo essa busca a força que empurra cada um de nós adiante. É ela que nos força a estudar, trabalhar, etc. Parece que há muitos milhares de anos, desde o tempo em que o homem vivia em cavernas e ainda não sabia escrever, que ele tem o costume de imaginar uma vida diferente. Através da história, filósofos consideraram a felicidade como o bem maior e a principal motivação para a ação humana. Porém, até pouco tempo, os psicólogos deram pouca atenção para o estudo da felicidade em detrimento do estudo da infelicidade e do sofrimento humano. A partir da década de 70, cientistas sociais e do comportamento passaram a estudar o tema. Mas, buscar a felicidade é uma meta meio vaga. Existem quatro emoções básicas e quatro comportamentos relacionados a essas emoções. São elas: felicidade-riso, tristeza-choro, raiva-tensão, prazer-orgasmo. A pessoa saudável precisa ter esses comportamentos em relação às emoções. Portanto, buscar a felicidade é uma neurose, pois estaremos jogando a energia no futuro (buscar), e além disso, negando as outras três emoções básicas (tristeza, raiva e prazer). Buscar a felicidade pode ser uma utopia inalcançável. Devemos vivenciar o agora, sem gastar energia no futuro. Para Frankl (1979), a “busca pela felicidade” é autodestrutiva: é uma contradição em si mesma. Quanto mais o indivíduo luta para alcançá-la mais se afasta dela.

 

Mas, a cada vitória surge uma nova necessidade. Uma vez que as necessidades são muitas e cada necessidade perturba o equilíbrio, o processo homeostático perdura o tempo todo. A cada vitória, como a compra de um apartamento, selecionamos outra necessidade de interesse. E, ficamos nesse processo figura-fundo: selecionamos o tempo todo o que é ou não de nosso interesse num dado momento.

 

A lógica do capitalismo é criar necessidades para então satisfazê-las. Mas, a felicidade não está diretamente ligada aos bens materiais, ou a outra pessoa. Para Frankl (1979) o homem busca encontrar um outro ser humano com o qual possa relacionar-se, entretanto nunca está preocupado primariamente consigo mesmo. Para serem felizes, as pessoas precisam-se se convencer de que dinheiro, status, nada disso é a solução. Primeiro, porque o dinheiro só altera o nível de satisfação até o momento em que cobre as necessidades básicas. E, se preocupar com o status, indica estar mais preocupado com os outros.

 

A felicidade está virando um peso: uma fonte terrível de ansiedade. A depressão é o mal de uma sociedade que decidiu ser feliz a todo preço. Muitos de nós estão fazendo força demais para demonstrar felicidade aos outros – e sofrendo por dentro por causa disso, se tornado um indivíduo retroflexor. A felicidade é um valor imposto pela sociedade, que é introjetado pelos indivíduos. Esses eventos negativos têm recebido maior atenção devido a seu ameaçador impacto potencial no bem-estar. Mas, o indivíduo deve ouvir seu organismo sem ficar introjetando os valores impostos pelos outros e pela sociedade. Sem dúvida alguma, todo ser humano que se dedica a um caminho ou busca realizar seus sonhos, além da ansiedade, já teve que lidar com a frustração. A frustração é um estado de tensão contra o qual o indivíduo afetado canaliza a sua energia. A frustração pode dar-se por ausência de um objeto ou pelo encontro de um obstáculo na via da satisfação dos desejos. De uma forma geral, nós nos sentimos frustrados quando não conseguimos atender as nossas próprias exigências e necessidades ou não conquistamos aquilo que estamos buscando. Encarar os problemas de forma madura é a única maneira de impedir que a vida se transforme em algo amargo a cada dia.

 

Para complicar ainda mais, temos cada vez mais opções. Antigamente as prateleiras das lojas abrigavam cremes dentais de apenas dois sabores. A escolha era com certeza mais fácil. Hoje, essas mesmas lojas têm nas prateleiras cremes dentais de todas formas, tipos, sabores: morango, uva, menta, etc. Com isso, as pessoas não têm mais a certeza de que a sua escolha foi a melhor. Mas, por que isso acontece? Porque escolher significa abrir mão das outras opções, e abrir mão implica em perda. E está aí mais uma fonte de frustração e ansiedade. Ou seja, quanto mais objetos a sociedade tem, mais insatisfeita ela é. Mas, o indivíduo sadio é aquele que não se deixa “corromper” pela sociedade. Segundo Carl Rogers (1979), quando o indivíduo abandona seus sentimentos autênticos, deixa de ouvir seu organismo e adota valores que são impostos pelos outros, este produz a inadaptação psicológica. “ Todo o organismo é movido por uma tendência inerente a desenvolver todas as suas potencialidades e a desenvolvê-las de maneira a favorecer sua conservação e enriquecimento” (ROGERS, 1979, pág. 143 ). Ao investigarem a memória para eventos de vida positivos e negativos, Seidlitz e Diener (1993) chegaram a conclusão de que pessoas felizes relembram mais os aspectos positivos ao invés dos negativos que as pessoas infelizes. Portanto, indivíduos felizes podem relembrar mais eventos positivos e menos negativos devido à freqüência com que eles experenciam esses eventos.

 

Mas, a felicidade não está em apenas um objeto ou momento. Ela é a soma de três pilares: prazer, engajamento e significado. O prazer é aquela sensação que toma nossos corpos quando lemos um bom livro, ouvimos uma boa música, etc. O engajamento é participar de forma ativa da vida, é o compromisso que as pessoas tem com a vida. Um sujeito engajado é aquele que está absorvido pelo que faz. O significado, que é o que dá sentido a vida, pode ser adquirido via religião ou ao fazer o bem para os outros, citado por Frankl (1995) como um dos três caminhos para a busca do sentido existencial. Entretanto, um dos maiores erros da sociedade atual é concentrar a busca da felicidade em apenas um dos pilares, e geralmente o pilar escolhido é o prazer, que é considerado o menos importante. Segundo Frankl (1979), todas as vezes que se busca diretamente atingir o prazer, este objetivo deixa de existir, uma vez que isto implica no homem primariamente preocupado com uma razão para ser feliz, em lugar de ser feliz.

 

O ser humano pode ser feliz quando escolhe ser autêntico e torna-se um indivíduo que cria e recria a si mesmo.

Esse individualismo não existe naturalmente. Ele tem que ser construído. Somente o homem individualizado pode ser feliz.

A felicidade não é produto da sorte, do destino, da herança genética ou social, nem de qualquer outra forma de pré-determinação.

A felicidade tem que ser conquistada. O homem conquista a felicidade aprendendo a aceitar e a expressar seus próprios pensamentos e sentimentos. Buscando se autoconhecer e se autodeterminar, transformando seus pensamentos e sentimentos em vontade própria e sua vontade em projetos de vida. O que é preciso para que um humem se individualize e tenha vontade própria?

Constatar que não gosta de estar alienado, estranho de si até ao ponto de não reconhecer-se e decidir conhecer sua verdade.

Conscientizar-se de sua insatisfação com as amarras, acreditar que pode ser livre e empenhar-se para se libertar.

Aceitar que tudo na vida é relativo e passageiro, que está só no mundo e que conta apenas consigo mesmo para expressar e defender seus pensamentos, sentimentos e vontades e para realizar seus projetos de vida.

Tornar-se responsável pelas próprias escolhas.

Desenvolver a habilidade de dar respostas criativas e corajosas.

Conquistar segurança interna através do exercício constante do autoconhecimento e da auto-afirmação.

Tornar-se autônomo e correr seus próprios riscos, assumindo o sofrimento dos erros e fracassos e o sabor dos acertos e vitórias.(LESSA)

 

 

Ser feliz não é tão simples assim. A felicidade é breve. Há momentos que ser infeliz é preciso, pois se a alegria que determinada situação possibilita nunca acabasse, iríamos “vivenciar” ela apenas uma vez. Nesse caso, quando a infelicidade toma conta de nós, devemos encarar o sofrimento e identificar suas causas reais, pois assim, estaremos dando um passo na direção do autoconhecimento.

 

Não existe uma fórmula para a felicidade que funciona com todo mundo, pois cada indivíduo é único. Sentir-se feliz é uma sensação interior que está vinculada a um estado psíquico de realização pessoal plena. Por esta razão, a felicidade deve ser concebida, na sua essência, como sendo de origem existencial. Todo indivíduo nasce e existe para ser feliz. Cada pessoa é diferente e reage à vida de modo diferente. Não devemos levar tudo a sério. Deve-se viver o presente e não se preocupar com o futuro. “Leveza” é a palavra chave para entender que até as melhores sensações têm fim. A felicidade não é um fim em sim, e sim uma conseqüência de como levamos a vida. Um jeito garantido de ser feliz é se preocupando menos em ser feliz. Uma vez que o homem tenha uma razão para ser feliz, ou quando tenha encontrado um sentido para sua existência, ou quando estabelece uma relação afetiva com o outro, isso o torna feliz. Segundo Frankl (1979), a felicidade é uma conseqüência, a felicidade acontece, e deve-se deixar que ela ocorra.

 

Quanto mais o indivíduo se volta para a felicidade ou quanto mais se envolve numa busca direta da felicidade, é quando precisamente ele perde de vista a razão para ser feliz, e conseqüentemente a felicidade desaparecerá, já que para ele não há mais outra razão senão a de ser feliz. Não se sente mais motivado a ser feliz. Não mais se preocupa com a busca do sentido da vida, vê a felicidade como um objetivo imediato a ser alcançado. Ou seja, a felicidade é algo difícil de ser alcançada à medida que é percebida ou se constitui no objetivo único, por outro lado, surge como conseqüência natural do encontro do sentido da vida, da relação com o outro, da vivência da autotranscedência, inerente ao ser humano.

 

Bibliografia:

 

AXT, Bárbara. A ciência da felicidade. Revista Superinteressante. Edição 212, p.45-52, abril /2005.

 

FRANKL, V. A falta de sentido da vida: um desafio para o psicólogo. In Millon, T. Teorias da Psicopatologia e Personalidade. Rio de Janeiro: Interamericana, 1979.

 

FRANKL, V. Logoterapia e análise existencial. O homem em busca do sentido último. Campinas: Pay II, 1995.

 

ROGERS, C. Uma teoria da Personalidade. In MILLON, T. Teorias da Psicopatologia e Personalidade. Rio de Janeiro: Interamericana, 1979.

 

GIACOMONI, Claudia. Bem estar subjetivo: em busca da qualidade de vida. Disponível em <http://www.sbponline.org.br/ >Acesso em 12 out.

 

AUGUSTO, Jordan. Como lidar com a frustração. Disponível em <http://www.bugei.com.br/ >. Acesso em 28 set.

 

LESSA, Jadir. A felicidade como possibilidade existencial. Disponível em <http://www.existencialismo.org.br/jadirlessa/informa.html> Acesso em 01 out.

 

Seidlitz, L. e Diener, E. (1993). Memory for positive versus negative life events: theories for the differences between happy and unhappy persons. Journal of Personality and Social Psychology, 64, 654-664, 1993.

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