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Os Ataques Contra a Igreja



A quebra da unidade cristã

 

No inicio dos tempos modernos, a Igreja foi o alvo favorito das críticas sociais. Despeja­vam-se ataques contra o comportamento imo­ral dos sacerdotes, contra o clima de corrupção do clero, contra as negociatas envolvendo coi­sas sagradas.

 

Havia também o descontentamento dos comerciantes, que sentiam a necessidade de urna nova ética religiosa mais de acordo com a ambição material.

 

Além de tudo isso, havia ainda conflitos políticos entre a Igreja e os governantes das monarquias européias, que representavam a afirmação dos sentimentos nacionais.

 

Todo esse processo de crítica e desconten­tamento contra a Igreja católica desembocou num movimento de rompimento religioso: a Reforma Protestante. Foi essa reforma, realizada no século XVI, que promoveu a ruptu­ra efetiva na unidade do pensamento cristão oficial.

 

 

 

Causas da Reforma Protestante

 

 

 

Diversos fatores levaram ao movimento da Reforma Protestante. Vejamos os principais:

 

 

 

Fatores religiosos

 

 

Entre os motivos religiosos que determinaram um descontentamento em relação à Igre­ja católica, podemos citar:

 

 

 

– Corrupção do clero religioso: para ga­nhar dinheiro, o alto clero de Roma iludia a boa fé das pessoas através do comércio de relíquias sagradas. Milhares de pessoas eram enganadas comprando espinhos que coroaram a fronte de Cristo, panos embebi­dos pelo sangue do rosto do Salvador, obje­tos pessoais dos santos etc. Além desse Co­mércio fraudulento, a Igreja passou a ven­der, também, indulgencias, isto é, o per­dão dos pecados. Mediante um bom paga­mento, destinado a financiar obras da Igre­ja, os fiéis poderiam comprar a salvação e a entrada para o céu.

 – Ignorância do clero: a maior parte dos sacerdotes desconhecia a própria doutrina católica e demonstrava absoluta falta de pre­paro para funções religiosas. A ignorância e o mau comportamento do clero representa­vam sério problema, pois a Igreja dizia que os sacerdotes eram os intermediários en­tre os homens e Deus. Ora, se esses interme­diários se mostravam ignorantes e incompe­tentes, era preciso buscar novos caminhos para o encontro com Deus.

 

 

 

– Aumento dos estudos religiosos: com a utilização da imprensa, aumentou o número de exemplares da Bíblia que podiam che­gar às mãos dos estudiosos e da população. A divulgação dos textos sagrados e de ou­tras obras religiosas contribuiu para o surgi­mento de diferentes interpretações da dou­trina cristã. Apareceu, por exemplo, tinia corrente religiosa que, buscando apoio na obra de Santo Agostinho, afirmava que a salvação do homem era a1cançada pela fé. Essas idéias contrariavam a posição da Igre­ja, baseada em Santo Tomás de Aquino, que dizia o seguinte: são a fé e as boas obras que conduzem à salvação.

 

Fatores socioeconômicos

 

 

A Igreja católica, durante o período me­dieval, condenava o lucro excessivo (a usura) e defendia o preço justo. Essa moral econômica entrava em choque com a ganância da burguesia. Grande número de comerciantes não se sentia à vontade para extrair o lucro máximo. Viviam ameaçados com o inferno.

 

Os interessados nos lucros do comércio sentiram a necessidade de urna nova ética religiosa, mais adequada á época de expansão comercial e de transição do feudalismo para o capitalismo. Como veremos mais adiante, a ética protestante mostrou-se bem mais identificada com o espirito dos tempos modernos.

 

 

 

Fatores políticos

 

 

Com o fortalecimento das monarquias na­cionais, os reis passaram a encarar a Igreja, que tinha sede no Vaticano e utilizava o latim, como entidade estrangeira que interferia em seus países. A Igreja, por seu lado, insistia em se apresentar como instituição universal que unia o mundo cristão.

 

Essa noção de universalidade, entretanto, perdia força, pois crescia o sentimento nacionalista. Cada Estado, com sua língua, seu povo e suas tradições, estava mais interessa­do em afirmar suas diferenças em relação a outros Estados do que suas semelhanças. A Reforma Protestante correspondeu a esses inte­resses nacionalistas. Exemplo: a doutrina cris­tã dos reformadores foi divulgada na língua nacional de cada país e não em latim, o idio­ma oficial da Igreja.

 

 

 

A REFORMA DE MARTINIIO LUTERO

O homem que não aceitou a venda de indulgências

 

 

 

Martinho Lutero (1483-1546) nasceu em Elsieben, na Alemanha. Era filho de um empreiteiro de minas que atingiu certa prospe­ridade econômica. Influenciado pelo pai, en­trou em 1501 na Universidade de Erfurt para estudar Direito, mas seu temperamento inclina­va-o para a vida religiosa. Em 1505, após qua­se ter morrido durante uma violenta tempesta­de, ingressou na Ordem dos Agostinianos, cum­prindo promessa feita a Santa Ana.

 

Estudioso, metódico e aplicado, Lutero conquistou prestigio intelectual. Em 1508, já era professor da Universidade de Wittenberg.

 

Em 1510 viajou a Roma, sede da Igreja católica. Regressou profundamente decepciona­do com o ambiente de corrupção e avareza em que vivia o alto clero. Nos anos de 1511 a 1513, aprofundou-se nos estudos religiosos até que começaram a amadurecer, em seu espiri­to, novas idéias teológicas. Nas epístolas de São Paulo, encontrou urna frase que lhe pare­ceu de importância fundamental:

 

 

 

O justo se salvará pela fé.

 

 

 

Concluiu Lutero que o homem, corrompi­do em razão do pecado original, só poderia sal­var-se pela fé exclusiva em Deus. A fé, e não as obras, seria o único instrumento de salvação, graças à misericórdia divina.

 

 

 

 

 

 

 

O rompimento de Lutero com a Igreja católica

 

 

Em 1517, explodiu o conflito decisivo que provocou o rompimento entre Lutero e a Igre­ja católica.

 

Com o objetivo de arrecadar dinheiro pa­ra a reconstrução da basílica de São Pedro, o papa Leão X autorizou a concessão de indul­gencias (perdão dos pecados) aos fiéis que contribuíssem financeiramente com a Igreja. Es­candalizado com essa salvação comprada, Lute­ro afixou na porta da igreja de Wittenberg um manifesto público – as famosas 95 teses – em que protestava contra a atitude do pa­pa e expunha alguns elementos de sua doutri­na religiosa.

 

Iniciava-se, então, urna longa discussão entre Lutero e as autoridades católicas que ter­minou com a decretação de sua excomunhão, em 1520. Para demonstrar firmeza e descaso diante da Igreja católica, Lutero queimou em praça pública a bula papal Exsurge domine, que o condenava.

 

 

A expansão do luteranismo

 

 

Ao lado dos problemas meramente religio­sos, houve urna série de fatores sociais e econô­micos que favoreceu a difusão das idéias de Lutero na Alemanha. Destaca-se, entre eles, o fato de a maioria das terras alemãs perten­cer à Igreja católica. A nobreza local cobiçava o domínio dessas propriedades.

 

Nessa época, o que chamamos de Alema­nha nada mais era do que um conjunto de prin­cipados e cidades independentes. Não existia, portanto, um país unificado, com unidade polí­tica. A região fazia parte dos domínios do Sa­cro Império Romano Germânico, controlado pela dinastia dos Habsburg. A sede do império ficava na Espanha, e o imperador, aliado do papa, procurava preservar certa unidade em terras alemãs e a autoridade sobre seus prínci­pes e nobres.

 

Com fome de poder e de riqueza, as clas­ses elevadas (nobreza e alta burguesia) estavam descontentes com a Igreja e o comando do imperador. Por outro lado, as classes sociais ex­ploradas (camponeses e artesa os urbanos) também culpavam a Igreja pela situação de misé­ria de que eram vítimas. Havia, portanto, en­tre as diversas classes sociais, certa opinião comum contra a Igreja.

 

Liderados por Thomas Münzer, os campo­neses, a partir de 1524, passaram a organizar urna série de revoltas contra sacerdotes ricos e nobres alemães, donos de grandes propriedades (movimento anabatista). Os camponeses lutavam violentamente pela posse de terras, pela igualdade social e pelo fim da exploração.

 

As classes dominantes, então, uniram-se para acabar com a revolta camponesa. Lutero apoiou os ricos e publicou um manifesto de ódio contra os camponeses revoltados. O tex­to escrito por ele dizia:

 

Contra os bandos camponeses assassinos e ladrões. Nada é mais terrível que um homem revoltado. É preciso despedaça-los e degola-los. Mata-los como se faz com um cachorro touco.

 

Na luta contra os poderosos, os campone­ses foram esmagados. Morreram mais de cem mil e o líder Thomas Münzer teve a cabeça cortada.

 

Em troca do apoio dado às classes ricas, Lutero conseguiu aliados entre a nobreza e a alta burguesia. Os poderosos viram nele um homem confiável e o auxiliaram a divulgar sua doutrina religiosa pelo norte da Alemanha, na Suécia, Dinamarca e Noruega. Em 1529, protestaram contra as medidas, tomadas pelo im­perador contra Lutero, que impediam cada Es­tado de adotar sua própria religião. Foi a par­tir desse protesto que se espalhou o nome protestante para designar os cristãos não-católicos.

 

Não sendo atendidos pelo imperador Car­los V, o grupo de príncipes protestantes for­mou, em 1531, urna liga político-militar (Liga de Schmalkalden) para lutar contra as forças católicas ligadas ao império. Somente em 1555 o imperador aceitou a existência das Igrejas luteranas, assinando com os protes­tantes a Paz de Augsburgo. Era o reco­nhecimento oficial da separação religiosa do mundo cristão.

 

 

 

A REFORMA DE CALVINO

A riqueza material pode ser um sinal da salvação eterna

 

 

 

João Calvino (1509-1564) nasceu em Noyon, na Franca, país em que estudou Teologia e Direito. Influenciado pelo pregador Gui­lherme Farel, aderiu ás idéias protestantes. Quando, em 1534, as autoridades católicas fran­cesas caçavam os suspeitos de heresias, Calvino fugiu para a Suíça, onde o movimento refor­mador já se desenvolvia, sob a liderança de Zwinglio (1484-1531).

 

Em suas pregações, Zwingho dava muita importância à crença na predestinação dos homens para a salvação, valorizando menos o aspecto da justificação pela fé. Homem práti­co e racionalista, Zwinglio conquistou o apoio da burguesia comercial da Suíça. Seu trabalho religioso preparou o caminho para que lá se desenvolvessem as idéias de João Calvino.

 

Em 1536, Calvino publicou sua principal obra, a Instrução da religião cristã crista, na qual afir­mava que o ser humano estava predestina­do, de modo absoluto a merecer o céu ou o in­ferno. Explicava que, por culpa de Adão, to­dos os homens já nasciam pecadores (pecado original), mas Deus tinha eleito algumas pes­soas para serem salvas, enquanto outras seriam condenadas à maldição eterna.

 

Portanto nada que os homens pudessem fazer em vida poderia mudar-lhes o destino, previamente traçado. Mas a fé, existente em algumas pessoas, podia ser interpretada como um sinal de que elas pertenciam ao grupo dos eleitos por Deus à salvação. Tais pessoas, os eleitos, sentiriam dentro do coração um irresis­tível desejo de combater o mal do mundo, simplesmente para a glória de Deus. A prosperida­de econômica de algumas pessoas, sua rique­za material, era interpretada pelos seguidores de Calvino como um sinal da salvação predestinada.

 

 

 

Governo autoritário e valores burgueses

 

 

Em 1538, Calvino foi expulso da Suíça, devido a seus excessos de rigor e de autorita­rismo. Entretanto conseguiu retornar em 1541 e consolidou seu poder na cidade de Genebra, tornando-se senhor absoluto do governo e da nova Igreja calvinista até o ano de 1561. Durante esse período, Genebra ficou submetida a um governo teocrático, que dirigia a socieda­de misturando política e religião.

 

Entre os órgãos criados pelo governo calvinista destacava-se o Consistório, encarregado de vigiar e punir os cidadãos. O calvinis­mo condenava práticas corno o jogo, o culto a imagens de santos, a dança, o adultério. As penas impostas aos infratores eram geralmen­te duras e cruéis. Muitos foram condenados à morte, entre eles, o médico espanhol Miguel de Servet, queimado vivo por negar o pecado original.

 

Com base no calvinismo, criou-se um modelo de homem burguês que cultivava o trabalho, a religião, a poupança e o lucro máximo. Para esse homem calvinista, o sucesso econômico e a conquista de riquezas eram um sinal da predestinação divina. Essa ideologia foi bem recebido pela burguesia comercial por uma razão simples: a ganância do lucro era justifica­da pela ética religiosa calvinista.

 

Identificando-se com os valores da burguesia, o calvinismo espalhou-se por diversas regiões da Europa, como França, Inglaterra, Escócia e Holanda – países onde se expandia o capitalismo nascente.

 

A REFORMA ANGLICANA

A busca do poder político e econômico do rei da Inglaterra

 

 

 

Henrique VIII (1509-1547), rei da Inglater­ra, tinha sido um fiel aliado do papa, recebendo o título de Defensor da Fé. Entretanto, urna série de questões políticas e econômicas o leva­ram a romper com a Igreja católica e a fundar urna Igreja nacional na Inglaterra, isto é, a Igre­ja anglicana.

 

Entre os principais fatores que provocaram a Reforma anglicana, destacam-se os seguintes:

 

– Fortalecimento da monarquia: a Igre­ja católica exercia grande influencia políti­ca na Inglaterra. Era dona de grande parte das terras e monopolizava o comércio de re­líquias sagradas. Para fortalecer o poder da monarquia inglesa, Henrique VIII teria que reduzir a influência do papa dentro da Ingla­terra.

 

– Posse das terras da Igreja: a nobreza capitalista inglesa queria apossar-se das terras e dos bens da Igreja. Para isso era preci­so apoiar o rei, a fim de enfraquecer os pode­res da Igreja católica.

 

– Recusa ao pedido de divórcio do rei Henrique VIII: casado com a princesa espanhola Catarina de Aragão, Henrique VIII teve com ela uma filha para sucedê-lo no tro­no. Entretanto o rei estava bastante descon­tente com seu casamento. Primeiro, devido à origem espanhola de sua esposa, já que a Espanha era inimiga da Inglaterra. Segun­do, porque desejava um herdeiro masculino e pretendia casar-se com Ana Bolena. Assim, em 1529 pediu ao papa que anulasse seu matrimônio com Catarina de Aragão, mas seu pedido foi recusado. Apesar disso, Hen­rique VIII conseguiu que o alto clero inglês e o parlamento reconhecessem a validade de suas intenções. Em 1534, o parlamento inglês votou o Ato de Supremacia, pelo qual considerava Henrique VIII o chefe su­premo da Igreja da Inglaterra. Criava-se a nova Igreja anglicana, mas nada foi modificado em termos de doutrina e culto em relação a católica.

 

 

Os ingleses, por juramento, deviam submeter-se ao rei da Inglaterra e não ao papa, caso contrário seriam excomungados e perseguidos pela justiça real. Houve pouca resistência, nela incluída a de Tomás Morus, (autor do livro Utopia), que foi decapitado.

 

Após a fundação da Igreja anglicana, surgiram, com os sucessores de Henrique VIII, urna série de lutas religiosas internas. Primei­ro, no governo de Eduardo VI (1547-1553), ten­tou-se implantar o calvinismo no país. Depois, no governo de Maria Tudor (1553-1558), filha de Catarina de Aragão, houve a reação católi­ca. Somente no reinado de Elizabete I (1558-1603) aconteceu a consolidação da Igre­ja anglicana, com a mistura de elementos do catolicismo e da doutrina protestante.

 

O calvinismo conseguiu, entretanto, grande número de adeptos entre a burguesia manufatureira. Foi entre os calvinistas que surgiram os grandes líderes da Revolução Inglesa do século XVII, revolução que rompeu de vez com que restava do sistema feudal na Inglaterra, promoveu o avanço do capitalismo.

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