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Do Mágico ao Social – Resenha do Livro



Introdução

 

Escritor dos mais conhecidos do país, Moacyr Scliar vale-se neste livro de sua outra especialidade, a de médico, para falar de um grande tema: a trajetória do homem em seus embates com a dor e a doença ao longo da história. Não se trata de mais uma obra de ficção do autor, mas há nelas diversos personagens fascinantes, a começar pelo xamã, que tem por tarefa”convocar espíritos capazes de erradicar o mal”. Incluindo entre outros, Pasteur, que desenvolveu a teoria microbiana da doença, assim como Osvaldo Cruz, “alucinado guerreiro, cuja espada é o fumigador usado no combate ao mosquito”, segundo uma charge da época intitulada Hygiene á muque.

 

 

 

O livro

 

 

 

Para Washburn e Moore o instinto de preservação é característica inata aos primatas, mas a doença é um antigo acompanhante da espécie humana.

 

Seqüelas traumáticas, evidências de doenças infecciosas e parasitárias estão registradas.Sendo sempre difícil estabelecer relações de causa e efeito devido aos diferentes graus de desenvolvimento da ciência tecnológica.Privados de recursos os povos primitivos explicavam a doença dentro de uma concepção mágica, sendo o doente vitima de demônios e espíritos malignos.

 

Competia ao feiticeiro ou xama curar o doente, organizando rituais, convocando espíritos capazes de erradicar o mal, fazendo uso de plantas alucinógenas, chamarizes para os espíritos capazes de combater a doença.O xamanismo confere autoridade e prestígio, ainda que nem todos os xamãs obtenham êxito em sua carreira.

 

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O Brasil incorporou grande parte destas práticas mágicas.Além dos índios, os negros, trazidos como escravos, tinham também suas práticas mágicas e conhecimento da medicina natural. “Africanos, Índios e mestiços foram os grandes curandeiros do Brasil colonial”.

 

A medicina mágica e religiosa envolve componentes instintivos e empíricos.Sem dúvida os poderoso efeitos psicológicos explicavam muitas curas.Mas, de algum modo, a prática dos feiticeiros e curandeiros beneficiou a pratica médica.

 

Os sumérios deixaram registrados os seus conhecimentos médicos em placas de barro, contendo receitas empíricas e médica.Os assírios e babilônios acreditavam que as doenças eram causadas por demônios.Os Sacerdotes eram os médicos do antigo Egito.

 

Para os antigos hebreus, a doença não era devida à ação de demônios, mas representava de qualquer modo, um sinal da cólera divina diante dos pecados humanos.

 

Nas Bíblia a doença era sinal de desobediência ao mandamento divino.Mas também continha formas de preveni-las.Preceitos adotados a partir da observação empírica do que mantinham a saúde e evitavam doenças.

 

Por exemplo, a circuncisão, há evidências de que o procedimento previne câncer do pênis, herpes genital, câncer de colo de útero e doenças venéreas de maneira geral.Mas não há consenso quanto a esta proteção.E muitas vezes vista com conotação negativa.Fazendo com que os Judeus se tornassem alvo de deboche na Palestina.

 

O esquema de poder dos sacerdotes ou feiticeiros guardiões de segredos vitais, não é, contudo, permanente.Novas formas de conhecimento sempre se contrapõem à magia, causando uma fissura que pode ser representada pelo componente empírico, se acentua à época da antiguidade grega, cuja medicina encontra sua expressão maior em Hipocrates.

 

Mais ou menos à mesma época em que em Roma, os plebeus se rebelavam contra os patrícios, Hipócrates, o “pai da medicina”, escrevia sua obra.

 

Na Grécia, no século 5º a.C. O ser humano ideal era uma criatura equilibrada no corpo e na mente.Tal concepção de saúde de saúde encontrava também suporte religioso.Os gregos cultivavam muitas divindades.Mas deve-se notar que a cura, para os gregos, era obtida pelo uso de plantas e de métodos naturais e não apenas por procedimentos ritualísticos.

 

Hipócrates desenvolveu extraordinariamente a observação empírica, deixaram casos clínicos registrados, reveladores de uma visão epidemiológica do problema de saúde-enfermidade. Tais observações não se ligavam ao paciente em si, mas a seu ambiente.

 

Observação atenta, mas não experimentação; registro lógico, mas não metodologia científica.Hipócrates praticava não a ciência médica, mas a arte de curar.Uma arte que levou às raias da perfeição, aos limites do possível e que viria a influenciar o pensamento médico durante muito tempo.

 

Assim como os gregos, os romanos tinham conhecimento da influência ambiental sobre a saúde.Aprenderam a construir esgotos e a drenar pântanos.Havia um esboço de administração sanitária, leprosários e leis sobre a inspeção de alimentos e de locais públicos.Mas não havia saúde publica, não estavam suficientemente organizados para tal alem das barreiras entres as classes que eram de magnitude suficiente para deter o progresso.Então sinais de intoxicação por mercúrio e chumbo foram registrados, bem como a baixa expectativa de vida dos trabalhadores nas minas desses metais.Mas como escreveu Galeno de Paergamon, o mais famoso dos doutores de Roma: “A vida de muitos é condicionada pelo trabalho e é inevitável que sejam vitimas do mesmo”.

 

A saúde ocupacional ainda teve de esperar muitos anos ate nascer.

 

Somente em 1700 Berdardino Rammazini viria a redigir o primeiro relato das doenças ocorridas no local de trabalho.

 

Então em Roma, grandes obras de drenagem também foram executadas para impedir as formas malignas da malaria chegaram à cidade.Seja porque tais obras não deram o resultado esperado, seja porque as guerras favoreceram a disseminação da doença, o certo é que se atribui um papel à malária na queda do Império Romano.

 

A queda do Império Romano e a ascensão do regime feudal tiveram profundas e desastrosas conseqüências na conjuntura de saúde, na prevenção e no tratamento de doenças na Idade Média, que ficou conhecida como a Era das Trevas, e do ponto de vista dos cuidados à saúde a denominação é exata.

 

A miséria, a promiscuidade e a falta de higiene, tudo isso criou condições para surtos epidêmicos; por exemplo, a peste.Doença causada por uma bactéria, pasteurella pestis.Três grandes surtos mundiais (pandemias) de peste bubônica ocorreram, o segundo deles pode ter matado 25 milhões de pessoas.

 

A Idade Média herdou as práticas supersticiosas surgidas com o declínio de Roma.Já para o cristianismo, as doenças eram vistas como forma de atingir a graça divina e só quem fosse merecedor obtinha a cura.

 

Para eles, dentre as doenças endêmicas, as mais temida era a lepra, na qual estava implícita a maldição bíblica.Estes doentes eram segregados, só entravam nas cidades em feriados especiais, com vestes características e anunciados por cornetas e matracas e viviam isolados em Leprosários.

 

Nessa mesma época surgem os primeiros hospitais, mais apropriadamente hospícios, ou asilos.

 

Mas no fim da Idade Média a situação começa a mudar.A medicina leiga começa a se desenvolver, surge a escola médica Salerno,na Itália,que a partir de 1240 começou a formar profissionais licenciados pelo rei.Onde se utilizava a obra de Hipócrates,de Galeno e dos mestres árabes.

 

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Surgiram também universidades onde o ensino de anatomia já admitia a dissecação,mas a prática médica ainda era rudimentar.

 

Mesmo com todo esse avanço no século 16 a Europa sofre um acréscimo na sua lista de doenças:A Sífilis.Há forte evidência de que muito do que se chamava antigamente lepra,era na realidade,sífilis.Não era de se admirar que o numero de leprosos parecesse tão grande.Durante a Idade Média os leprosários se multiplicaram em toda a Europa. Que logo no começo da Idade Moderna fecham suas portas e a lepra passou a ser menos diagnosticada a partir do século 16 e a sífilis tomou seu lugar.Fato facilmente explicável pelas grandes transformações sociais,a valorização da liberdade,a conduta mundana dos pontífices desmoralizando a Igreja católica e muitos outros acontecimentos que podem ter favorecido a difusão das doenças venéreas e especialmente a sífilis. A obra de Fracastoro sobre o contágio foi escrita numa época em que o misticismo da Idade Média

 

Não havia ainda desaparecido e a ciência moderna não havia nascido.A prática da quarentena foi introduzida na Venezuela em 1348,mas as razões para este procedimento eram empíricas.Em De Contagione , Fracastoro propõe uma teoria lógica da infecção e intui a existência de agentes específicos para cada doença.Recordemos que sequer o microscópio existia.A obra de Fracastoro distingue três tipos de contagio:O direto,através de roupas e contágio por distância.Por fim,prescreve ungüento de mercúrio no tratamento.

 

O problema da sífilis emerge numa época de grande desenvolvimento do capitalismo mercantil (diz-se hoje ainda,que resulta de “comércio sexual”).Na arte romana o Mercúrio é o símbolo da medicina,nas palavras dos alquimistas,o ,mercúrio “torna volátil o que é fixo,une a fêmea instável ao macho constante”.

 

Diante desta simbologia ,não é de se admirar que o mercúrio tivesse sido usado numa doença transmitida por via sexual.

 

As práticas esotéricas conviviam com o pensamento científico num período de transição chamado Renascença,em que a ênfase na eficácia ,na previsibilidade,no controle,mudou o sistema de valores.Paradoxalmente,no século 15 houve uma ressurreição do ocultismo que a Igreja tinha conseguido reprimir durante a Idade Média.

 

A alquimia,a astrologia,a cabala,as seitas secretas eram uma ameaça à Igreja,que acusava a alquimia de prometer a salvação sem fé.

 

O desfecho foi previsível: as religiões organizadas se mantiveram,a alquimia foi deslocada pela ciência oficial.Começavam a surgir as condições para o nascimento da moderna saúde pública.

 

Mas o que vem a ser,afinal,saúde pública?Em 1947,a Organização Mundial da Saúde formulou o seguinte conceito: “Saúde é o estado de mais completo bem-estar físico ,mental,e social e não apenas a ausência de enfermidade”.

 

Um conceito útil para analisar os fatores que intervêm sobre a saúde e sobre os quais a saúde pública deve por sua vez intervir,é o de campo da saúde (health field),estabelecido no Canadá,que abrange:A biologia humana,o meio ambiente,o estilo de vida,a organização da assistência à saúde.

 

A ênfase dada ao aspecto social e comunitário explica o metafórico conceito de saúde pública como medicina do corpo social: a saúde pública só pôde surgir quando a sociedade atingiu um grau de organização suficiente para se caracterizar como um “corpo”.

 

O conceito de corpo social é um conceito histórico e é natural que se compare as conjuntos sociais e a organismos vivos,na medida precisamente em que aqueles são organizados.

 

E com o desenvolvimento da anatomia,graças à dissecação de cadáveres,torna o corpo objeto de conhecimento.

 

O conceito de corpo social chegou inclusive ao Brasil,e pode ser exemplificado por um texto publicado na época do Estado Novo – “Que é uma fabrica se não uma caricatura de um organismo humano?De fato,a diretoria é a cabeça.Os impressos,as ordens,são os nervos e as e as determinações que transmitem.Os músculos são os operários.”

 

O conceito de corpo social amadureceu entre o final do século 17 e meados do 19.

 

Simultaneamente amadurecia também o processo de formação da saúde pública.

 

A modernidade trouxe à tona o importante debate sobre o Estado e sobre o intervencionismo estatal.Até que ponto é lícito,ou desejável,intervir no corpo social?

 

Os primeiros a tentar uma resposta a este problema foram os fisiocratas.Eles eram contra o intervencionismo ,consideravam que as sociedades humanas são regidas por leis naturais e defendiam a liberdade de produção e comércio.

 

É na Alemanha que surge ,em 1779,a idéia da intervenção do Estado na área de saúde pública.Lançando o conceito de política médica ou sanitária que continuou sendo desenvolvida,sempre com base em leis e regulamentos.

 

Mas o processo de consolidação da autoridade sanitária não teve só como cenário a Alemanha.A França de 1789 vê nascer a superposição entre o poder revolucionário e o poder médico.Surge a nosologia,ou ciência da classificação das doenças.A autoridade médica é reforçada,o hospital,até então visto como um depósito de doentes cuidados por religiosos ,muda de função.

 

Doentes mentais,agora são recolhidos aos hospícios.Uma verdadeira revolução psiquiátrica só viria a acontecer no século 20,com a psicanálise,novos medicamentos e o conceitos do centro de saúde mental.

 

Finalmente, deve-se mencionar que a partir da Idade Moderna é institucionalizado o ensino médico e o combate sistemático ao charlatanismo.

 

A luta contra a doença começa com a luta contra os maus governos e nela os médicos devem assumir um papel de destaque.

 

A figura de Oswaldo Cruz surge em meio à crise sócio-econômica e sanitária provocada, sobretudo pela febre amarela. É nesse contexto que Oswaldo Cruz é convidado a dirigir o Departamento Nacional de Saúde.As práticas adotadas por ele visando resolver o problema da febre amarela e de outras doenças, tomam forma de campanha.

 

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Outros setores manifestam seu descontentamento: a burguesia liberal.A instituição da vacina obrigatória gera uma rebelião popular (a Guerra da Vacina) que culmina com uma tentativa de golpe militar, logo dominado.Oswaldo Cruz sai vitorioso da crise e passa a ser considerado um grande nome da saúde pública Brasileira.

 

O desenvolvimento da ciência exigia novas formas de olhar sobre o corpo social e como todo processo histórico, o modelo autoritário do século 18 acabou sendo ultrapassado pelo progresso.A visão científica será implantada gradualmente na saúde pública e passará por três momentos:

 

* O Olhar Contábil: O século 19 começou pesado e medido e a saúde pública adquiriu características definitivamente científicas.Mas o olha contábil da saúde pública precisava ser completado por outro olhar, mas dinâmico: o olhar epidemiológico.

 

* O Olhar Epidemiológico: Até o século 19, as teorias predominantes sobre as causas das doenças tinham escassa fundamentação científica.Mas a situação mudaria, graças, sobretudo à mudança na metodologia das enfermidades.Na França e na Alemanha, diversos estudos são realizados.Surgem os epidemiologistas, “detetives médicos”.

 

* O Olhar Armado: O olhar é o de Louis Pasteur e o que a arma é o microscópio.

 

O microscópio tinha sido inventado no início do século 17; mas a microbiologia só começou a se desenvolver no século 19.

 

 

 

Desde então, a partir da Revolução Industrial, cidades industriais cresceram rapidamente e sem planejamento.Com carência do mais elementar equipamento sanitário em termos de abastecimento de água, de esgoto, de coleta de lixo e de higiene de habitação.

 

As medidas de saúde pública, contudo, não eram suficientes; não atingiam a dimensão social do problema.Então foi feito um conjunto de medidas progressivas que culminaram com a implantação do Welfare State, do Estado de bem-estar social.

 

A “questão social”, surgida como efeito da evolução Industrial.O desenvolvimento social já não podia ser autônomo, com o Estado intervindo às vezes sob forma de política.Impunha-se a necessidade de uma tecnologia da intervenção social.

 

Então foi criado o seguro social, que trouxe grandes benefícios à população.Assistência médica agora não era uma questão de caridade, mas um direito adquirido através do trabalho.

 

No Brasil, o seguro social surge com Getúlio Vargas na fase de industrialização e urbanização dos anos 30-40. É quando começa a se falar “povo”;até então ,tal categoria praticamente não existia.

 

O seguro social é parte de um elenco de medidas adotadas na área trabalhista.No Brasil, a criação do seguro teria grandes repercussões na área de assistência médica, já que até o século 18 praticamente não houve medicina oficial no país.

 

No Brasil a integração de serviços, ou pelo menos a coordenação de serviços é um passo importante para a racionalização. Contudo, a trajetória da saúde pública está muito longe de ser encerrada. Avanços têm sido registrados e o século 20 foi sem dúvida, um século de grandes acontecimentos na área de saúde pública. Mas as conquistas do passado nunca irão eliminar as controvérsias do presente.

 

Transcendendo a metáfora que acompanhou o seu nascimento e buscando o a solução dos grandes problemas que enfrenta, a saúde pública lança agora seu olhar para o futuro.

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Um Comentário »

  1. Eduardo 24 de setembro de 2013 at 21:39 - Reply

    Gostei da resenha.

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